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CAETANO VELOSO REGRESSA A PORTUGAL


Entre os muitos elogios justos que possam ser proferidos sobre Caetano Veloso, talvez a sua qualidade de trabalhar a carreira como se fosse uma intricada peça de filigrana é dos que mais ressoam ao fim de mais de cinquenta anos de canções. Ao fazê-lo, Caetano não está apenas a renovar o seu olhar artístico sobre si mesmo, mas também sobre o Brasil e as suas infinitas linguagens musicais.


O mais bonito desta renovação é que ela não pretende cortar com a raiz, muito pelo contrário: Caetano tem a ancestralidade bem presente, dando espaço para que ela se manifeste por novos caminhos, disco após disco.

© Fernando Young

Em Meu Coco, último trabalho de originais lançado em 2021, essa característica está bem presente. Os batuques da Baía, que têm em si a africanidade e a pulsão da mãe terra, flertam com orquestrações delicadas, tornadas poéticas graças à lírica das canções, onde tantos companheiros, amigos e irmãos de Caetano são nomeados direta e indiretamente, com requintada finura.


A digressão concebida em torno de Meu Coco, e que agora chega a Portugal para duas datas em Lisboa e uma data no Porto, é a manifestação concreta da elegância e da vitalidade que Caetano Veloso continua a demonstrar, já com 80 anos e a voz e a curiosidade de sempre. Fazer um concerto para divulgar um disco novo, como o próprio diz, é um hábito velho. Felizmente, há hábitos que não mudam. O que muda, sim, é a forma como Caetano olha para cada espetáculo, sempre com uma sensibilidade cinematográfica própria de alguém que admite ter alma de cineasta. “No show Meu Coco procuro juntar peças marcantes do álbum com obras que registem momentos históricos do meu trabalho”, escreve o próprio sobre este espetáculo.

© Fernando Young

O reportório é escolhido a dedo, não apenas com “a mera função de agradar aos espetadores”, mas criando um enredo que ponha em diálogo faixas de diferentes tempos. No fundo, que ponha em diálogo Caetano com a sua obra, com o seu público e com os seus mestres e discípulos.


É importante destacar aqui o papel das novas gerações na forma como o músico baiano se deslumbra com a excitante possibilidade de redescoberta. Não por acaso, chamou Lucas Nunes para a produção do álbum, músico de alguns dos projetos revelação mais entusiasmantes do Brasil, como os Dônica e os Bala Desejo. Pretinho da Serrinha também participa dos arranjos. “Passei quase todo o tempo dos ensaios seguindo as sugestões que vinham deles. Devo confessar que me sinto deslumbrado e intimidado pela musicalidade deles”.


Que alguém como Caetano Veloso, com o peso que tem na música e na cultura brasileira, diga que se sente intimidado por músicos bem mais novos do que ele, mostra toda a grandeza da sua personalidade e a abertura e a liberdade com que encara a criação artística.

Neste processo, é importante referir ainda o nome de Hélio Eichbauer, cenógrafo de Caetano Veloso desde “O Estrangeiro” (1989). Antes de morrer, em 2018, Eichbauer deixou um esboço cenográfico que foi adaptado neste espetáculo por Luiz Henrique Sá, seu antigo assistente. Nele, existe uma clara inspiração em Joseph Albers, como aliás em quase toda a obra de Hélio Eichbauer. Dessa feita, Caetano sublinha que “a adequação das linhas de Joseph Albers aos nossos sons nos diz que Hélio está vivo ali. O show é, desse modo, uma homenagem à sua memória”.


Com a digressão de Meu Coco, Caetano Veloso marca o regresso aos palcos portugueses, depois de ter cá estado ao lado de Gilberto Gil, com os filhos Moreno, Zeca e Tom e a solo, apenas ele e o violão. “Chego aos 80. A forma geral do show se deve também ao prazer da volta quase-pós-pandémica aos palcos e a atenção à minha história nessa arte tão amada e bem cultivada pelos brasileiros - mesmo que minhas reservas quanto a meu talento para ela não tenham se desfeito.”

Os espetáculos estão integrados na digressão Meu Coco, na qual o músico brasileiro apresenta ao vivo o seu último álbum de estúdio. As primeiras datas são a 9 e 10 de setembro, no Coliseu de Lisboa. Segue-se o Coliseu do Porto, a 14 de setembro.

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